Para se conhecer Paris, nada como percorrer suas entranhas. Conquistar e ser conquistado pela cidade-luz passa pelas veias e artérias do metrô, imenso labirinto sincronizado que se espraia por todos os quadrantes parisienses. Diante do mapa do metrô, integrado à rede ferroviária urbana, vislumbramos uma caótica e colorida teia de aranha. Dentro de suas galerias, no entanto, a sensação é de estarmos num tecnológico formigueiro humano. Avisos com a informação dos próximos trens, paradas programadas, mapas e dicas orientadoras por todos os lados. Por mais que queiramos nos perder na capital francesa, o metrô de Paris sempre nos encontra.

Linha amarelo-mostarda, direção Pontoise, estação Champ de Mars-Tour Eiffel. Perdi meus óculos de grau no topo da Torre. De certa forma, creio que parte de meu olhar quis contemplar por mais tempo a vista maravilhosa da cidade. A fortuna é que eu tinha um par de lentes-reserva. Do contrário, seria tormentoso passar o resto de meus dias na cidade-luz sem nitidez e não teria, por exemplo, avistado a flor vermelha que flutuava suavemente sobre as águas do Sena, enquanto passeava de bateau mouche. Para mim, o gracioso ponto vermelho no rio foi mais um sinal de que aquele lugar do planeta era propício ao encantamento, ao enlevo, à paixão.

Linha laranja, direção Château de Vincennes, parada em Palais Royal-Musée du Louvre. Um nonagenário persistia em subir, com extremo esforço, a escadaria da boca do metrô que dava para a rua de Rivoli. Meu ímpeto foi correr para ajudá-lo, mas me contive. Receei que ele tomasse meu gesto por ofensa. Lentamente o velho homem galgava degrau por degrau. Quando chegou à superfície, parou, respirou fundo, cruzou os braços nas costas e se foi satisfeito a passear pela praça com um olhar curioso e autoconfiante.
Atravessei a rua e me perdi no Museu do Louvre. Um dia inteiro de admiração e êxtase aos pés da beleza das artes de todos os tempos. Além das famosas atrações, como a Monalisa, em que Da Vinci retrata a expressão enigmática de uma mulher renascentista, e a Vênus de Milo, símbolo da beleza grega desnuda, dentre outras, me encantou a Vitória de Samotrácia, escultura majestosa que exprime o ímpeto da liberdade e da coragem aliada à graça e à beleza, perfeitamente conciliáveis na construção do feminino. Óbvio que não deu para percorrer nem um terço das galerias do museu mais visitado do mundo. Todavia, além do tesouro artístico e da própria arquitetura e estrutura do Louvre, me chamou atenção a profusão de grupos de crianças francesas, acompanhadas por mestres que ministravam aulas de história da arte e ressaltavam nuanças das obras. Por certo, começa ali a culturalização pela grandeza, pelo requinte e pelo amor às artes característica do povo francês.

Mas, a propósito dos parisienses, admito, encontrei alguns que validaram a fama de herméticos e mesmo antipáticos. O excesso de formalismo do francês corrobora. Não dispensam um cerimonioso excusez-moi, pardon, madame, bonjour, monsieur, merci, s’il vous plaît. Contudo, encontrei em minhas andanças, nas diversas estações, franceses disponíveis e corteses. Seriam exceção? Talvez não. Afinal, tem gente doce e amarga em todas as línguas. Essa diversidade proporciona a singularidade dos povos e, por que não, o exotismo humano.
Linha bordô, direção Porte d’Orléans, estação Saint Germain des-Prés. O restaurante-café escolhido foi Les Deux Magots, ao lado do Café de Flore, para sentir o gostinho de estar no mesmo espaço tão frequentado por Simone de Beauvoir, Sartre e Hemingway. Meu pedido foi uma tarte à la viande, uma torta de carne moída bem temperada e crua, e uma taça de vinho da casa, devidamente acompanhadas de pães e queijos franceses. Maravilhosos!
Linha verde, direção Porte de la Chapelle, conexão na estação Concorde, com a linha laranja, direção La Défense, parada na estação Charles de Gaulle-Étoile. Na Champs Elysées, em frente ao Arco do Triunfo, chegamos ao coração de Paris, onde pulsa a beleza e todo o glamour atribuídos à cidade. Nesse pedaço do mundo, antigo e moderno se fundem em um presente charmoso e inesquecível.

Em múltiplas combinações de linhas coloridas, sentidos e estações, podem-se apreciar as tulipas negras e brancas do Jardin du Luxembourg, o impressionismo do Museu D’Orsay, as gárgulas de Notre-Dame, os bistrôs do Quartier Latin, a feira de Montparnasse, as crêperies da Rue Mouffetard, a imponência do túmulo de Napoleão nos Invalides, os vitrais da Sainte Chapelle, a vista privilegiada de Montmartre, as esculturas de Rodin.
Porém, mesmo diante de tanta formosura, chega uma hora em que se cansa. Já não causa enlevo a obra-prima que seja. Passamos a olhar autômatos, sem mais nos emocionar a beleza que se nos oferece. Está na hora de voltar para casa.
Última parada: aeroporto de Orly. Quando o avião decolou, olhei pela janela para me despedir da cidade-luz. Lá embaixo, um imenso tapete verde e amarelo se estendia sob meu olhar. Eram campos extensos com vegetação nas cores canarinhas. Seria o derradeiro aceno concedido a esta brasileira, como tantas, apaixonada por Paris.
Simone Pessoa
Simone, em poucas linhas, descreveu o encanto de Paris. Me fez recordar, com saudades, de alguns locais onde também estive e para onde pretendo retornar no próximo ano.
Valeu, Tomás.
Simone, adorei sua crônica! Como sempre, você me faz viajar com sua forma de escrever. Revisitei Paris através do seu texto. Realmente é uma cidade encantada e encantadora. Bjs, Paulinha.
Maravilhoso! Só o seu olhar de escritora para observar esses detalhes que agente apressada não fica imaginando como cada linha de trem leva a destinos tão diferentes e são nesses vagões que agente sente o povão, o cheiro das pessoas, os objetos , enfim os costumes do dia a dia. Parabéns . Abraços
Paris é realmente um espetáculo em tudo, mas me impressionou muito o metrô com todo aquele emaranhado de linhas de diversas cores. Como você diz ” Por mais que queiramos nos perder na capital francesa, o metrô de Paris sempre nos encontra”. Vai-se a qualquer lugar e rapidamente via metrô.
Oi, Simone!
Acho que você descobriu um novo filão para suas ótimas crônicas! Levar o público a conhecer esses lugares maravilhosos através dos seus olhos. Particularmente, acredito que existem lugares que se tornam ainda mais belos quando apresentados pelos olhos de outras pessoas.
Tenho certeza que você seria capaz de lançar uma belíssima publicação repassando suas impressões pessoais sobre as estações que visita.
Estou certo, tmabém, que o público ficará com água na boca para conhecer o que você já conheceu. ![]()
Parabéns, mais uma vez, pela leveza e pela qualidade com que você aborda os assuntos do cotidiano.
Paz e Sucesso.
Abraços virtuais, Mano
8:35 PM
Eita que viajei com vc Simoninha, merci beaucoup pelo passeio. beijos