Sobre Viagens

Viajar geralmente é uma fonte de prazer. Contudo, é também uma oportunidade privilegiada de conhecer as pessoas com quem viajamos. É comum em viagens ocorrer situações inusitadas, por vezes estressantes, que põem à prova o humor e o espírito solidário do grupo. Nessas circunstâncias os egos tendem a se manifestar e revelar suas facetas menos nobres. Por essa razão, viajar em grupo requer conhecimento e preparação no sentido de antever possíveis pontos de conflito e estabelecer acordos de convivência. Isso não impede, mas amenizam, desgastes durante a viagem.

‘Um é pouco. Dois é bom. Três é demais.’ Quando uma pessoa viaja com mais de uma pessoa ou um casal viaja com mais de um casal, a probabilidade de conflito aumenta. Os ritmos diferentes precisam ser alinhados. Ir às compras ou ao museu? Eis um dilema comum quando se viaja em grupo. Quando se está apenas a dois, esse entendimento é mais fácil, vez que cada um não quer ficar só e prefere ceder, em boa medida, seus interesses para agradar e preservar a companhia. Em grupo, já não há esse compromisso. Sempre tem um que só pensa em comprar e outro que, ao contrário, tem horror a perder tempo com isso. Há aqueles que preferem museus e são capazes de ficar o dia inteiro num só espaço cultural, o que torra os nervos dos aficionados por compras. Essas facções vão se manifestando e atraindo adeptos de suas causas, o que vem dividir o grupo. Daí, defendo que se deve viajar em pares e evitar grupos ímpares. Alguém vai sobrar na história…

Certa vez, viajei a três. Meus companheiros de viagem eram pessoas amigas. Porém, tive a sorte de ser a dissidente do grupo, pois meu destino era explorar a cidade e conhecer as exposições com vagar. O movimento dos outros dois era de percorrer esses espaços en passant. Também, como sou eminentemente diurna, buscava encurtar as noites – para o dissabor dos demais, que se empenhavam em varar a madrugada nos bares da vida. Assim, para o bem e a harmonia do grupo, tive que ceder e me submeter às preferências dos dois. Afinal, eu era quase sempre voto vencido. O fato é que, depois dessa viagem, nunca mais viajamos juntos. Aqui para nós, ainda bem…

Autora: Simone Pessoa (@)

Medo de Avião
Foto: Márlio Esmeraldo

Tudo começa quando se aproxima o dia da viagem. O sentimento de aventura, normalmente suscitado, dá lugar a um misto de ansiedade e medo. No dia ‘D’, o corpo e a mente entram em estado de alerta. O coração dispara. A respiração superficial não areja bem os pulmões. As mãos ficam frias. O pensamento é um só: o vôo. Não o vôo metafísico, mas o vôo real a dez mil pés de altura.

Janela ou corredor? Pergunta a atendente que emite o bilhete. Hesito. Afinal, qualquer lugar é indesejável para quem tem fobia de viajar de avião. Corredor – balbucio, finalmente. Pelo menos é menor o risco de olhar pela janela e ver a Terra lá embaixo exercendo a lei da gravidade… Após espera no salão de embarque, uma voz anuncia a chamada final (ou seria a sentença final?…). Na entrada da aeronave, os sorrisos do comandante e demais tripulantes – em vão para mim – tentam transmitir segurança.

Instalada na poltrona, faço promessas para o caso de sobreviver… Percebo que meu vizinho lê jornal sem se dar conta da gravidade da ocasião. Do outro lado do corredor, uma senhora folheia, despretensiosa, uma revista. As crianças ao redor tagarelam, expressando alegria e excitação. Como podem?!

O momento da decolagem… Tensão máxima! Todos já com os cintos de segurança afivelados até o imenso pássaro de aço dar a largada para o vôo. Um celular esquecido numa bagagem de mão se põe a tocar impertinente. Todos se entreolham procurando identificar o displicente que negligenciou. Finalmente, o dono desconcertado desliga o aparelho.

Quando a aeronave atinge certa altitude e estabiliza, a tensão se mantém sintonizada com o ruído abafado das turbinas. A essas alturas, o momento do serviço de bordo acaba por servir de aparente distração – embora eu quase nada consiga deglutir.

Apesar de não me considerar religiosa, na aterrissagem, quando o fantástico pássaro pousa na pista, me pego fazendo o sinal-da-cruz. Viva! Nasceu a criança! Uma nova chance!

E as promessas? Essas deverão cair por terra…

Autora: Simone Pessoa (@)

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