
Foto: Flickr (Le Méchant Garçon)
Após refutar todas as alternativas oferecidas para uma viagem inesquecível, os filhos sentenciaram: “não queremos lugares bonitos pra ver ou cultura para apreciar; queremos coisas divertidas pra fazer”. Resultado: acabamos cedendo e, para alegria deles e desespero das nossas economias, debandamo-nos para os parques temáticos do mundo Disney. Sofrida a maratona burocrática de entrada, perdemo-nos como “Alice no país das maravilhas”…
Filas extensas ordenavam a multidão sequiosa por emoções radicais. Quanto mais alta e sinuosa, com manobras que desafiavam a lei da gravidade, melhor o conceito da atração: mais apreciada e concorrida pelos jovens e adultos que ambicionam superar limites e exibir auto-afirmação. O enfrentamento de tais desafios é como uma proclamação (para si e para seus pares) de fortaleza e coragem. Custa-me acreditar que seja por puro prazer.
Numa das filas de uma sensacional atração, senti o dilema entre a vontade de acompanhar meus garotos – todos excitadíssimos para fazer uma “viagem a Marte” – e a consciência do sofrimento reservado na eletrizante aventura simulada do espaço sideral. Preferi não embarcar a ceder à tentação da emoção forjada. Isso, de fato, não me confere regozijo, e, sim, submete-me a penas disfarçadas de brincadeiras tecnológicas. A intrepidez em dizer não ao masoquismo (pelo menos para mim) me proporcionara um sentimento de conquista e bem-estar quase tão intenso quanto deve ser o despencar da mais arrojada montanha-russa. O preço a pagar pela recusa diante da cobiçada atração foi não fazer constar, no meu currículo, a tal “viagem a Marte”, e, provavelmente, ser taxada de medrosa, sem espírito aventureiro. A minha vingança: escrever esta crônica. Afinal, o ato de escrever me é bem mais realizador. E a emoção, se não tão intensa e inflamada, se faz suave e verdadeiramente prazerosa.
A propósito, a trajetória terrena já é bastante desafiadora, ornada de íngremes precipícios, depressões e montanhas, com o adicional de que o desfecho de cada percurso é um mistério, sem controle ou previsibilidade; pulsação garantida para manter viva a chama existencial.
Autora: Simone Pessoa (@)
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